terça-feira, 25 de outubro de 2016

O menino Tiago



  Depois de um tempo sumida aqui, decidi postar essa crônica poesia, que retrato uma realidade brasileira: o descaso com crianças abandonadas no país.



O menino Tiago


5:30 acorda, finge estar feliz
Afinal aquela vida, não era a que ele quis
Come pão amassado, que conseguiu de um duro danado
Sai de casa frenético, rumo a estação
Mal sabia que aquele dia não acabaria rápido não
Sai de Armênia, rumo a São mateus
Duvidava muito que podia existir algum Deus
De porta em porta, ou melhor, de catraca em catraca
Ele pula, se julga, se autointitula
''-Sou fudido mesmo, cresci nessas rua
vendo bala, pirulito, o que tiver,
é tudo verdadeiro, acredite se quiser.''

Tiago se olha, e indignado com os farrapos
Quer comprar roupa nova, ''ahh mas é melhor guardar pra droga''
Droga de vida, droga de dinheiro, Meu Deus que desespero!
Mãe, pai? Só a saudade satisfaz.
Mortos a bala, após roubarem uma velha, e mala.
Próxima estação, é o som do seu dia a dia
Aquela pedição louca, já era sua rotina
‘’Eu podia estar roubando, ou matando..’’ já virou frase clichê,
Quando na verdade Tiago torce, é pra ele não morrer
De frio, de fome, de dor, de desamor que a vida lhe causou.

Ah, mas é tudo questão de mérito, diz a burguesia bem de vida
Mal sabia que aquilo era o que ele menos queria.
Enquanto todos fecham os olhos, e fingem não ver
Milhares de crianças que não aparecem na tevê
Vivem de esmola todos os dias, quando na verdade
Só querem uma cama quentinha
Estudo? Saúde? Lazer e segurança?
O Brasil esqueceu mesmo do que precisa uma criança
E agora sentado, aquele rosto lamacento
Piedade e súplica pra conseguir sossego
Um lanche lhe é oferecido, tudo que tinha aquela senhora
‘’Obrigada dona, a fome já tava batendo na porta’’

Volta e meia se pergunta, se aquilo era destino,
Sina,
Rotina?
Via em propagandas que lugar de criança era na escola
Quando na verdade sua rotina era mesmo pedir esmola
Junção de ódio, rancor e que ironia
Ele ia descontar sua raiva era na cocaína
5 paus você leva a droga toda, coisa boa é coisa boa
Se revender te dou almoço e janta, vem ajudar, cê não é mais criança
Tiago vai, com brilho nos olhos
Vender droga agora é seu negócio.

15, 20, 25 anos
Tiago era agora Tiagão, dono desse mundão
Mande mais 100 kilos daquela da boa, bem a risca
A gente vende pra mauricinho que paga tudo à vista
Reflexos de uma vida, uma história qualquer
Tire conclusões e opiniões que quiser
Tiago é so mais um.


Mas o fato está aí
Enquanto você lia isso,
Entraram mais crianças no crime e no vício
E o Estado? Governo?
Sistema podre perfeito
Que fecha os olhos para os fracos
E abre para novos ricos contratos.


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